A prevenção contra a demência ganha novos contornos científicos a partir da identificação de hábitos e condições clínicas que aceleram o declínio cognitivo. Um estudo publicado pela revista científica Neurology Open Access acompanhou 12 mil pessoas ao longo de 26 anos e comprovou o impacto direto da saúde cardiovascular no cérebro. O levantamento indica que pessoas que chegam à meia-idade sem três fatores de risco específicos — pressão alta, diabete e tabagismo — vivem mais tempo livres de perdas neurológicas graves.
Os dados mostram que indivíduos avaliados aos 55 anos sem nenhum desses três quadros apresentaram, em média, mais de 30 anos de vida sem sinais de demência, alcançando a faixa dos 85 anos com autonomia preservada. Em contrapartida, os voluntários que conviviam com os três fatores simultaneamente registraram apenas 17 anos sem a condição, desenvolvendo o quadro por volta dos 72 anos. O resultado representa uma diferença média de 13 anos de vida saudável entre os dois perfis.
A demência é uma síndrome clínica caracterizada pela deterioração progressiva da memória, da capacidade de raciocínio e da independência funcional no cotidiano. No Brasil, estimativas apontam que aproximadamente 3 milhões de pessoas vivem com a condição, sendo a doença de Alzheimer a causa mais frequente. O cenário nacional, contudo, é agravado pelo subdiagnóstico, já que mais de 80% dos casos no país não recebem identificação médica adequada.
Segundo Daniel Yankelevich, neurologista do Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), muitas famílias interpretam os esquecimentos e a perda de habilidades cotidianas como um processo natural do envelhecimento. O especialista ressalta que o declínio das funções mentais não é uma consequência normal da idade e exige investigação clínica criteriosa diante dos primeiros sinais de perda de autonomia.
Em termos de controle de saúde preventiva, os critérios do Ministério da Saúde estabelecem parâmetros claros para o monitoramento contínuo:
- Pressão alta: valores a partir de 14 por 9;
- Diabete: glicemia em jejum igual ou superior a 126 mg/dl, cenário em que o organismo não produz ou não utiliza adequadamente a insulina;
- Pré-diabete: taxa de glicose entre 100 e 125 mg/dl, estágio de alerta no qual mudanças alimentares e prática regular de exercícios físicos podem reverter o quadro.
Na frente de pesquisas preventivas, a comunidade científica avalia o papel de agentes imunizantes na proteção do sistema nervoso central. Levantamentos recentes investigam a associação entre a vacina contra o herpes-zóster e a redução da incidência de transtornos neurodegenerativos. Resultados preliminares indicam uma incidência cerca de 20% menor de casos de demência entre indivíduos vacinados contra o vírus.