A paisagem urbana de Santos, no litoral de São Paulo, ostenta uma característica peculiar e preocupante: a presença de 319 prédios com algum nível de inclinação. O problema, que remonta a décadas, entrou em uma nova fase de discussões, com a Prefeitura e a Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (ACOPI) buscando soluções financeiras para realizar obras de alinhamento que possuem custos milionários.
Os edifícios foram construídos majoritariamente entre as décadas de 1950 e 1970 sobre antigos manguezais aterrados. O solo da região é composto por camadas argilosas, encharcadas e de baixa resistência. Na época, as fundações foram feitas de forma rasa, sem atingir as camadas firmes do subsolo, o que causou o afundamento irregular das estruturas ao longo do tempo. Em alguns casos, a inclinação chega a um metro.
O desafio do financiamento e o papel do BNDES
Embora laudos da prefeitura indiquem que não há risco iminente de desabamento, a correção é necessária para garantir a longevidade do patrimônio e o bem-estar dos moradores. O principal entrave, contudo, é o valor. Estima-se que as obras de recuperação estrutural custem entre R$ 7 milhões e R$ 22 milhões por edifício, dependendo do grau de inclinação e do tamanho da estrutura.
Para viabilizar o projeto, o plano em discussão envolve o BNDES. A proposta é que o banco federal abra uma linha de crédito para os moradores, tendo a Prefeitura de Santos como garantidora do empréstimo. Ou seja, caso um morador não pague, o município assumiria a dívida.
Valorização e custo por apartamento
Para os proprietários, o investimento é alto, mas visto como necessário. Em determinados prédios, cada apartamento teria que desembolsar mais de R$ 200 mil para custear a obra. Izabel Rubira, advogada e moradora de um desses edifícios, conta que o nivelamento interno do seu apartamento já resolveu problemas de equilíbrio, mas o alinhamento total do prédio é o objetivo final.
Segundo Eliana Mello, presidente da ACOPI, o alto custo é compensado pela segurança e pela valorização imobiliária. "É um valor alto, mas vai garantir o patrimônio e também valorizar o imóvel", afirma. Atualmente, a cidade aguarda definições técnicas e financeiras para dar início ao que pode ser um dos maiores projetos de engenharia civil corretiva do país.