A decisão de Michelle Bolsonaro de deixar a presidência nacional do PL Mulher reacendeu, nos bastidores de Brasília, as especulações sobre seu futuro político e ampliou a disputa pelo espólio político de Jair Bolsonaro.
Lideranças da direita e interlocutores de partidos do centro avaliam que os movimentos recentes vão além de uma reorganização partidária e representam uma tentativa de Michelle demarcar espaço diante das pretensões presidenciais do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), escolhido como pré-candidato do partido ao Planalto em 2026.
Segundo esses interlocutores, a ex-primeira-dama pode ter recebido informações com potencial de impactar a campanha do enteado, o que teria motivado uma mudança de estratégia.
Um dos exemplos citados é o compartilhamento de um vídeo em que o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (Republicanos-RJ), comenta uma suposta festa do banqueiro Daniel Vorcaro com a presença de “homens que defendem a família”. Ao compartilhar o conteúdo, em tom enigmático, ela escreveu que “a verdade de Jesus Cristo vai prevalecer”.
Embora Michelle não tenha oficializado uma candidatura, o estopim da crise foi a divergência sobre as alianças do PL no Ceará. Ao criticar publicamente Flávio, ela sinalizou, na avaliação de aliados, que busca demonstrar força política própria, sobretudo entre mulheres e evangélicos.
O movimento ganhou força nesta terça-feira (30), quando Michelle oficializou a saída do comando do PL Mulher, cargo que ocupava desde 2023. Oficialmente, alegou que vai se dedicar aos cuidados com o marido e a filha. Nos bastidores, porém, a decisão é vista como o ápice do desgaste com os filhos do ex-presidente.
Nos últimos dias, Michelle afirmou que foi desrespeitada por Flávio em conversas telefônicas e disse que o senador teria afirmado que ela “chegou ontem” e não deveria interferir nas decisões do partido. As declarações também expuseram uma atuação coordenada de Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro nas redes sociais.
Dirigentes partidários ouvidos reservadamente afirmam que Michelle tenta evitar ser escanteada pelo clã Bolsonaro ou tratada apenas como um ativo eleitoral. A estratégia, segundo essas fontes, é manter seu nome em evidência e mostrar que o favoritismo de Flávio não é consenso dentro do grupo.
Apesar das tentativas de conciliação conduzidas pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, aliados reconhecem que o racha familiar fragiliza a unidade da direita. Na avaliação dessas lideranças, ao deixar o comando do PL Mulher, Michelle reforça que pretende ter papel decisivo na sucessão presidencial de 2026, seja como candidata, vice ou principal cabo eleitoral.