Em entrevista ao programa Canal Livre, o presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, fez uma admissão inédita sobre os bastidores da ação movida pela legenda que questionava o resultado das eleições presidenciais de 2022.
O dirigente afirmou categoricamente que o partido “não tinha prova nenhuma” de fraude nas urnas eletrônicas, mas que deu prosseguimento ao processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por insistência do então presidente Jair Bolsonaro.
A declaração ocorreu após questionamento do cientista político Fernando Schüler sobre a "ferida aberta" no país e a ação baseada em um relatório do Instituto Voto Legal, que sugeria discrepâncias entre urnas de modelos antigos e novos.
"Não achamos prova nenhuma"
Valdemar explicou que, inicialmente, o relatório apresentado pelo instituto apontava que, nas urnas de modelos anteriores, Bolsonaro venceria a eleição, enquanto nas urnas mais novas, Lula sairia vitorioso. Diante dessa anomalia estatística, ele acionou técnicos de sua confiança dentro do partido.
“O Luiz trabalhou a noite toda junto com o Duda para achar uma prova. E nós não achamos prova nenhuma. Não tinha nada”, declarou Valdemar. Ele reforçou que, apesar da estranheza nos dados apresentados pelo instituto contratado, não havia materialidade para contestar o pleito: “A base era aquela, aquela soma, não tinha como sair”.
A pressão e a recusa de Bolsonaro em assinar
Segundo o presidente do PL, a decisão de judicializar a questão, mesmo sem evidências, foi motivada por pressão política e rumores de que ele estaria negociando cargos com o governo Lula. Valdemar relatou que foi chamado por Bolsonaro após o segundo turno.
“O Bolsonaro me chamou e falou: 'Valdemar, precisamos entrar com processo disso aqui'. Eu falei: 'Não tem prova, Bolsonaro. Já levantamos tudo. É estranho, mas não tem prova'”, relatou.
Valdemar revelou ainda um detalhe crucial sobre a autoria da ação. Ao preparar o documento para entrada no TSE, ele o levou para que Bolsonaro assinasse. O ex-presidente, no entanto, recusou-se.
“Eu levei [o documento], falei: 'Tá aqui pronto, Bolsonaro, pode assinar'. Ele falou: 'Eu não assino isso'. Eu falei: 'Como? Você que é o candidato a presidente, você tem que assinar'. Ele disse: 'Eu não assino'”, contou Valdemar.
Orientado pelo advogado do partido, Marcelo Bessa, de que a legenda precisaria subscrever a ação, Valdemar decidiu assinar o documento para não desamparar seu aliado político. “O Bolsonaro já tá nessa situação, perdeu a eleição... Ele tá abatido demais, eu não quero contrariar o Bolsonaro. Eu vou assinar”, relembrou o cacique do PL.
Multa milionária e bloqueio de contas
A consequência da ação, considerada litigância de má-fé pelo presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes, foi uma multa de quase R$ 23 milhões imposta à coligação de Bolsonaro.
Valdemar lamentou o desfecho financeiro, destacando que Moraes bloqueou imediatamente as contas do partido, impedindo até mesmo o direito de defesa prévio sobre a punição. “Ele bloqueou todas as minhas contas. Minha conta de recurso próprio [...] e minha conta do Fundo Partidário. Nós ficamos sem um tostão”, afirmou, citando que precisou pedir o desbloqueio de verbas para pagar a folha de pagamento dos funcionários do partido.
“Se arrependimento matasse”, comentou um dos jornalistas da bancada, ao que a narrativa de Valdemar confirmou o alto custo político e financeiro de uma ação que, segundo ele próprio, não possuía base probatória.