O avanço das chamadas “canetas emagrecedoras” e dos medicamentos à base de GLP-1 tem provocado debates sobre o futuro da cirurgia bariátrica no Brasil. Nas redes sociais, muitas pessoas passaram a acreditar que os novos tratamentos farmacológicos substituiriam definitivamente o procedimento cirúrgico. No entanto, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica afirma que essa ideia está equivocada.
Segundo a entidade, a cirurgia bariátrica continua sendo uma ferramenta essencial para pacientes com obesidade grave, principalmente nos casos em que o tratamento clínico não apresenta resultados suficientes.
1. Cirurgia bariátrica continua indicada para muitos pacientes
Especialistas explicam que obesidade é uma doença complexa e que cada paciente precisa de uma abordagem individualizada.
“Existe uma narrativa errada que se instalou nos consultórios e nas redes sociais de que, com a chegada dos análogos de GLP-1 e outros medicamentos, a cirurgia bariátrica perdeu sua vez. Isso não é verdade. Existe um tratamento para cada tipo de paciente e os medicamentos e a cirurgia, em muitos casos, devem ser complementares”, afirma Juliano Canavarros.
Segundo o especialista, os medicamentos representam um avanço importante, mas ainda possuem limitações relacionadas ao acesso, custo e manutenção dos resultados.
2. Especialistas alertam para uso indiscriminado de medicamentos
A popularização das canetas emagrecedoras também acendeu um alerta entre médicos sobre automedicação e uso sem acompanhamento especializado.
“Não temos dados precisos sobre a fila para cirurgia no país, a doença avança e há um descontrole no que se refere ao uso de medicamentos clandestinos e sem acompanhamento médico”, alerta Juliano Canavarros.
De acordo com a SBCBM, muitos pacientes têm recorrido a produtos importados irregularmente ou utilizado medicamentos sem indicação adequada, o que pode trazer riscos à saúde.
3. Queda nas cirurgias preocupa especialistas
Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar apontam redução no número de cirurgias bariátricas realizadas nos últimos anos. Em 2024, a queda foi de 18% em comparação com 2023, e a entidade estima que a retração tenha chegado a 20% no ano seguinte.
“Embora não tenhamos estudado a causalidade, a preocupação é que muitos pacientes estejam optando por terapias não cirúrgicas para obesidade sem compreender totalmente todas as opções disponíveis”, explica Juliano Canavarros.
Segundo a SBCBM, milhares de brasileiros permanecem na fila do SUS aguardando tratamento especializado enquanto convivem com o agravamento da obesidade e de doenças associadas.
4. Cirurgia ainda apresenta resultados consistentes a longo prazo
Além da perda de peso, especialistas reforçam que a bariátrica também impacta diretamente doenças associadas à obesidade, como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares.
“A cirurgia bariátrica é hoje o único tratamento efetivamente disponível para obesidade dentro da rede pública de saúde e também o único capaz de apresentar resultados consistentes a longo prazo. Os benefícios vão muito além da perda de peso, incluindo impacto direto na redução de doenças associadas e até nos custos do sistema de saúde”, afirma o presidente da SBCBM.
Nos Estados Unidos, um estudo apresentado durante a reunião científica anual da American Society for Metabolic and Bariatric Surgery mostrou que pacientes submetidos à gastrectomia vertical ou bypass gástrico perderam cerca de cinco vezes mais peso em dois anos do que aqueles tratados apenas com medicamentos GLP-1.
5. Obesidade cresce no Brasil e desafia sistema de saúde
Enquanto cresce o debate sobre tratamentos, os números da obesidade seguem avançando no país. Dados da pesquisa Vigitel 2025, divulgada pelo Ministério da Saúde, mostram que o número de adultos brasileiros com obesidade aumentou 118% entre 2006 e 2024.
Para especialistas, o cenário reforça a necessidade de ampliar acesso ao tratamento especializado e melhorar a estrutura pública de atendimento.
Na última semana, a SBCBM apresentou ao Conselho Nacional de Secretários de Saúde um projeto para criação dos Centros de Tratamento da Obesidade, com foco em acompanhamento contínuo e integrado dos pacientes.
“A obesidade é uma doença crônica, progressiva e multifatorial. Não existe solução única. O mais importante é garantir que o paciente tenha acesso ao tratamento correto, com acompanhamento médico e estratégias seguras”, conclui Juliano Canavarros.