Representantes do agronegócio e de diversos setores produtivos manifestam preocupação com a possível proibição da escala de trabalho 6x1, tema que avançou na pauta de prioridades dos presidentes da Câmara e do Senado. Em reunião realizada hoje em Brasília, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) congregou lideranças de 100 segmentos da economia para o lançamento de um manifesto que pede cautela e a modernização da jornada de trabalho no país.
O setor argumenta que a atividade no campo possui especificidades que não permitem interrupções rígidas, uma vez que o cuidado com o plantio e o rebanho exige atenção contínua.
Segundo Joaquim Passarinho, presidente da Frente Parlamentar do Empreendedorismo, as demandas da produção rural, como a ordenha diária, ocorrem independentemente de feriados ou fins de semana.
Produtividade e sustentabilidade econômica
O documento apresentado pelas lideranças baseia-se em quatro princípios fundamentais, com destaque para a preservação do emprego formal, a redução da informalidade e a utilização da produtividade como pilar para o desenvolvimento e a sustentabilidade. Para o agronegócio, a adoção de um modelo único e rígido de jornada pode reduzir a eficiência operacional, dificultar o planejamento estratégico e elevar os custos de produção.
Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), afirma que o setor produtivo não se recusa a debater o tema, mas critica o que chama de condução "açodada" por motivações eleitorais. Alban ressalta que a discussão deve passar obrigatoriamente pelo conceito de produtividade e pelo equilíbrio das contas da previdência, especialmente em um cenário de debate sobre a desoneração da folha de pagamento.
A análise de especialistas reforça a necessidade de maturidade econômica para mudanças estruturais. O sociólogo José Pastore observa que países com jornadas reduzidas, entre 34 e 35 horas semanais, atingiram esse patamar após processos longos de modernização e enriquecimento econômico.
Desafios globais e custos de produção
O alerta sobre o aumento dos custos ganha contornos mais graves diante do cenário internacional. De acordo com a análise do economista Daniel Vargas, da FGV, o setor já enfrenta desafios logísticos e mudanças climáticas severas. A situação é agravada por conflitos recentes no Irã, que impactam diretamente o preço de insumos essenciais.
Vargas aponta que a instabilidade externa eleva os custos da energia e dos fertilizantes, componentes fundamentais da produção brasileira.
Nesse contexto, representantes do agro defendem que qualquer alteração na jornada de trabalho deve considerar a exposição do setor a esses riscos externos e a necessidade de manter a competitividade do Brasil no mercado global.